Relatório reafirma práticas antissindicais e racistas da Nissan nos EUA

Pesquisa de organização internacional afirma que os trabalhadores da montadora japonesa Nissan, no Mississipi, Estados Unidos, recebem treinamento antissindical desde o primeiro dia de contratação, o que viola padrões internacionais de direitos trabalhistas. Segundo relatório realizado pelo professor especialista em direito trabalhista internacional Lance Compa e pela seção do Mississippi da Associação Nacional pelo Progresso da População Negra (NAACP), a empresa informa aos trabalhadores não possuir um sindicato de classe e, como parte do programa de treinamento, exibe no primeiro dia de trabalho um vídeo com argumentos de que os sindicatos destroem empregos, fecham fábricas ou enfraquece as empresas, que seriam obrigadas a demitir os trabalhadores.

Entre as táticas para intensificar a tensão, os trabalhadores são obrigados a frequentar, durante o horário de expediente, salas para exibição de filmes, em circuito fechado, relacionados às demissões de metalúrgicos sindicalizados em outras montadoras. Reuniões com gestores também são obrigatórias para apresentação de slides ou palestras com conteúdo contra as organizações de classe.

Segundo o especialista, a montadora em Canton, Mississipi, emprega 3 mil trabalhadores efetivos e mil contratados em regime temporário. Os contratados diretos recebem US$ 23 por hora trabalhada, enquanto os temporários têm o salário de US$ 12 a hora, além de não receber seguro-saúde, pensão complementar, como os contratados. “A Nissan não contrata efetivos há 10 anos; logo após a abertura da fábrica eles começaram as contratações por prestadoras de serviço”, afirma Compa.

O pesquisador aponta que a empresa contrata consultores para reuniões individuais para reforçar a ameaça. “O gestor tem o trabalhador sob controle durante todo o período que ele permanece na montadora. O resultado é a pressão psicológica e o medo de perder o emprego, que impedem que os trabalhadores busquem orientações sobre as leis trabalhistas”, diz Compa.

Segundo ele, a maior parte dos trabalhadores nessa unidade da montadora é formada por negros, enquanto os gestores são em sua maioria brancos. “O estado do Mississipi tem um histórico de racismo e os trabalhadores têm consciência desse legado, tanto que nas entrevistas para a pesquisa alguns expressaram uma preocupação nesse sentido por parte de alguns supervisores. Mas não acredito que se trate de uma política empresarial, e sim questões de relacionamento individual”.

As convenções 87 e 98 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), sobre os princípios e direitos fundamentais no trabalho (1998), proíbem impor pressão, fazer ameaças de qualquer tipo que possam minar o direito dos trabalhadores à liberdade de associação, criar um ambiente de intimidação e medo com respeito à sindicalização, negar acesso aos trabalhadores para que ouçam representantes sindicais dentro do local de trabalho.

No relatório, o especialista informa que a Nissan segue as leis trabalhistas estadunidenses e que não se comprometeu a seguir os padrões internacionais, além de afirmar que o relatório é falso. A empresa reconhece e negocia com sindicatos pelo mundo afora, mas não nos Estados Unidos.

Os dados foram apresentados na manhã de hoje (31), em entrevista coletiva, na sede da Força Sindical, em São Paulo. As centrais sindicais brasileiras, por meio de suas estruturas nacionais de metalúrgicos, assumiram a campanha deflagrada pelo UAW (United Auto Workers) contra as práticas antissindicais naquela unidade da montadora japonesa.

Em janeiro, quando a campanha foi lançada, o presidente da CUUT, Vagner Freitas, e o secretário geral e de Relações Internacionais da CNM/CUT, João Cayres, estiveram no Mississipi e conheceram de perto a realidade local. Na ocasião, eles encamparam a campaha que, na sequência, ganhou a adesão das demais centrais sindicais brasileiras.

 

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